A Nova Ordem do Mundo

Todos falam e falam sobre a geração Y e seus impactos nas escolas e organizações. Parece que os especialistas sempre tem muito a dizer, mas eu presto atenção neles e eles não dizem nada… de novo! E já que todo mundo fala o que dá na telha, seguem algumas considerações que não constam da ladainha oficial.

Primeira parte: o mundo tal como o entendemos (parece óbvio, mas é a própria coisa-em-si da realidade). Qualquer coisa que está presente no mundo quando você nasce é normal e ordinária, sendo apenas uma parte natural da forma como as coisas funcionam. Seja pensando em redução eidética ou, simplesmente aceitando os dados imediatos de sua percepção, o mundo é assim como lhe parece e você aprende a lidar com ele.

Como assim? Vamos lá! Você não terá qualquer problemas em interagir com qualquer coisa existente, por exemplo, tecnologia touch screen, se aos 3 anos de idade ganhar um tablet ou acessar o computador da família, à despeito dos gritos de “não mexa aí!”. Aliás, você achará muito natural que estas coisas existam, mesmo sendo lerdas e frágeis.

Seguindo o caminho da evolução, podemos também dizer que qualquer coisa que for inventada ou descoberta no período em que você tiver entre 15 e 25 anos, será encarada como nova, excitante, revolucionária. Você provavelmente irá querer começar uma carreira rentável nestas novas ondas de inovação. Afinal, no auge de suas capacidades porque não entrar em dobra máxima nestas novas configurações?

Mas, o quadrado das oposições da lógica pega você na esquina da valência. Contrariamente ao que se poderia supor, qualquer coisa inventada depois que você tem 35 anos é um acinte que deturpa a ordem natural das coisas!

Há extrema resistência em aceitar novas tecnologias, principalmente se você demorou anos para decorar os atalhos e sabe exatamente onde os ícones estão e não quer que um novo design obrigue você a mudar suas manias de operação (Sou prova viva disto: não uso o IExplorer 9, porque mudaram a barra de pesquisas e não me consultaram!)

Dito isto, fica claro que a nova ordem do mundo passa pelos mesmos caminhos que as gerações anteriores caminharam, ou seja, pela inelasticidade na apreensão de novos padrões. E isto é perfeitamente natural, pois a criatura humana tende a determinar seu cosmo (alguns falam zona de conforto) ordenando preferências e selecionando a maneira com que interage com o mundo, até a cristalização definitiva de seu leque de opções. O que ocorreu com o rádio e a tv, passa a repetir-se entre a máquina de escrever e o PC, indo até os caminhos virtuais.

Mas, aqui temos um agravante. Há 40 anos atrás, a velocidade produtiva não tinha a escala que tem hoje, nem as gerações passadas se preocupavam com os milhares de pentaflops de dados gerados diariamente no planeta. Some-se a isso as desigualdades sociais, problemas ambientais, ausência de soluções políticas, corrupção endêmica e um gigantesco mercado econômico cuja fome pantagruélica deve ser suprida, sob pena do fim da civilização…

Além do mais, antes existia uma cultura lastreada em valores, onde a família, bem ou mal, era o foco central da configuração cultural básica e existia ao menos uma indicação norteadora. As pessoas aprendiam a escovar os dentes em casa, sabiam que para serem respeitados, deviam antes demonstrar respeito etc. Atualmente se jogam as crianças nas escolas e os pais bradam, com o boleto nas mãos, que “pagam para que os estabelecimentos os ensinem a ser gente”. Sintomático. Hoje as modulações interativas determinam qual o tipo de salsicha que você vai ser quando crescer.

Segunda parte: Inexistindo formação de valores e com o acesso às coisas dadas no mundo, cada vez mais impessoais e volitivas, fica quase impossivel lidar com a frustração. Se você observar as reações de quem não consegue passar de um estágio no game, verá que esta interação cria uma espécie de adição (addict = vício) com os parâmetros aos quais se defronta. A honra torna-se questão de saber quais comandos permitem ultrapassar as dificuldades. A vida aliena-se como num rebanho, que observa o predador almoçando o espécime abatido, quanto a manada suspira aliviada.

Assim, a “nova” geração tem problemas básicos de birras, alienação da prática e insatisfação com o ordenamento das coisas. O vazio interior, pedra de toque das gerações obsoletas, torna-se tédio e superficialidade, uma vez que todos os direitos estão adquiridos e o que importa é a satisfação plena das necessidades de consumo. Há uma crença tácita que as coisas caminharão numa escalada de inovação e isto resolverá os problemas.

Então, quando chega a hora de enfrentar os desníveis e a monotonia árida da paisagem das atribuições profissionais, os detonadores psíquicos entram em ação e surgem conflitos. Os mais velhos, já contaminados pela obediência cega e desestimulados à colaborar não entendem o criticismo dos mais jovens, nem a suposta arrogância de “chegarem aqui hoje, já querendo mandar”.  E se ressentem de terem gasto tanto esforço para chegarem onde estão e não obterem o “mínimo de respeito”. Eles tem medo!

Os mais novos, olhando a curva de ineficiência e a hipocrisia dominante, não querem ser heróis ou “mudar o mundo”. Tentam apenas fazer do trabalho um lugar divertido e, se possivel, adaptar o ambiente a eles, inserindo no sistema variáveis como chefes tolerantes e compreensivos, tarefas estimulantes, alta tecnologia e muita grana, para quando derem a sua parte da contribuição, possam aposentar-se bem antes dos 40. Eles não querem que uma corporação os assimile ou determine o rumo de suas vidas. Fora Borgs!

Antes que este artigo vire livro, vamos concluir apressadamente: Há uma fratura, uma cisão irreparável entre as ideologias progressistas e as novas gerações nascidas num ambiente de usufruto e alto desenvolvimento tecnológico. Da mesma maneira, existem escadas e pontos que podem ser construídas. Do lado antigo, a experiência e as cicatrizes adquiridas com o passar dos anos podem dar a consistência que falta a esta nova geração. Do lado novo, a ausência de determinação e a multilateralidade superficial pode ser resolvida com um pouco de treino para resistir à abrasão.

Os mais novos, contudo, se necessitam de maior dose de realidade e disciplina, não querem que lhes seja inoculada a amargura e a afasia, características típicas do envelhecimento da alma!

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