Qual é a Minha Vocação?

Outro dia, numa entrevista para uma revista setorial, me perguntaram: – Prof. Lico, quais os melhores testes para avaliar a vocação das pessoas, dos jovens? Como direcioná-los ao mercado de trabalho de maneira conveniente e prática? O que eles precisam aprender?

Enquanto ouvia as questões, eu fiquei, ali a pensar se devemos continuar abordando as relações humanas, desta maneira asséptica, processual e distanciada!  Geralmente, em nossas preocupações, estamos sempre buscando a equação mais eficiente… para os outros.

Isto nos transforma (educadores) em fornecedores de mão de obra para determinados setores da economia e garante que a máquina funcione, só que não explica ou realmente oferece aquilo que as pessoas precisam. Nem proporciona o desenvolvimento social ou realização pessoal. Em nossa estrutura educacional anacrônica e ideologizada, formamos multidões de zumbis e incentivamos mais o bullying que o empreendedorismo.

Aliás, eu é que pergunto: – Quem de vocês foi formado para ser um empreendedor vitorioso? Para tomar decisões corretas e liderar pessoas? Deixa que eu respondo: – Quase ninguém! Isto, porque desde o ensino fundamental até a graduação, somos formados para a “atividade” e não para a “estratégia”. Trocando em miúdos, somos educados para sermos empregados.

É claro que existe grande demanda por cargos técnicos e os governos, zelosos de seus superávits, buscam suprir e direcionar a juventude para suprir esta lacuna. Pesquisas recentes de consultorias de RH dão conta que cerca de 54% das vagas específicas, de alta qualificação, não são preenchidas. Retrato acabado do que eu disse acima.

Mas, voltando aos testes vocacionais, e as perguntas feitas na entrevista, eles podem, sim, mensurar o potencial cognitivo/aprendizagem e as inclinações subjetivas à areas específicas como, exatas, humanas, além de vários aspectos comportamentais etc. Daí podem ser feitos laudos, análises e projeções. Só que: testes são apenas instrumentos de avaliação linear.

Quando muito, são meros gabaritos e funções lógicas vazias, que apenas indicam “tendências”; são estruturas discursivas, termômetros que querem se passar por ressonância magnética; são pílulas que pretendem ser diagnóstico por imagem.

Saibam que, assim como os indivíduos variam, os resultados no momento do teste variam conforme a metodologia empregada para construí-lo e o estado biopsicoafetivo do indivíduo analisado. Por isso é preciso ter cuidado.

Em relação à pesquisa vocacional, quando é feita uma abordagem séria, ela não leva em conta apenas avaliações padrão. O interesse e alinhamento emocional é determinante, pois alguém pode ser um gênio em física e, desprezando isto, fazer agronomia pela sua paixão ao tema. O que tem que ser proporcionado ao jovem que busca um caminho no mercado é suporte educacional, relacional e orientação pedagógica, que possa equilibrar habilidades, conhecimentos, atitudes e afetos, para uma tomada de decisão coerente.

Isto evita cursar a faculdade errada e os desapontamentos tão comuns na profissão. É preciso ir além da objetividade de um planejamento de carreira. É necessário conhecer limites e potenciais, se possível fazer experiências antes, principalmente porque estamos lidando com pessoas numa faixa etária que nem sempre sabem ao certo o que são, o que desejam e quanto de pressão suportam sem espanar as sinapses.

Para descobrir, então como orientar a vocação, é preciso também atentar para os tópicos abaixo:

 1 – Fazer o jovem entender que “achar a vocação” não significa encontrar a felicidade ou seu “destino profissional” na vida. Segundo estudos da Unicamp em 2004, só no estado de S. Paulo 37% dos universitários graduados não atuavam em sua área de formação, hoje estima-se que esteja na faixa de 42%. É o chamado desemprego intelectual, distorção que ocorre quando a pessoa tem formação, mas trabalha em funções que não necessitam de especialidades, aviltando a condição do profissional ou se encontra em outra área, totalmente distinta de sua graduação.

 2- Evitar cair na armadilha de apostar sua vida “no que dá dinheiro” ou no resultado do teste. Você pode ter excepcional pendor para a contabilidade ou advocacia e estas são carreiras que tradicionalmente dão dinheiro, mas você realmente gosta é de tocar violão… Nada compensa uma frustração profissional, pois ela também é uma dor humana.

Além disso, ninguém será um profissional respeitado e competente, se não tiver um mínimo de afeição ao seu trabalho. Os absurdos que vemos nas carreiras, profissões e especialidades, decorre, em primeiro lugar da deficiência na formação, e em segundo lugar, do desprezo que o próprio profissional têm de suas atividades. Ele não quer fazer o que faz. Daqui nasce todo o rancor, imprevidência e atentados à dignidade humana. Seja inteligente e valorize o que gosta, mas tenha a certeza que é bom nisto.

 3 – Equalizar Desejo e Razão. Em toda a carreira haverá pedras (e como!) no seu caminho. Você, justamente será bem-sucedido se conseguir removê-las ou descobrir uma maneira melhor de fazer as coisas que deve fazer. Além disso, é preciso que você decida o que realmente quer (e isto demora outro tanto). Se realmente adorar tocar violão, o teste dirá que esta inclinação existe, mas, você pode nunca tocar bem o suficente para viver disso. Assim, não basta gostar ou ter pendor, é preciso adquirir conhecimento e destacar-se. Isto significa: Disciplina e Dedicação. Mesmo se você possui limitações de aprendizagem, sua persistência pode levá-lo bem longe na carreira ou em seu negócio.

 Ralar é parte do processo e isto demora anos. Não basta ser Nerd para ter sucesso. Nem adianta copiar os modelos sub-culturais das classes baixas, onde a ignorância é sinônimo de progresso. A grande sacada é reunir habilidade, conhecimento e atitude, sendo que a habilidade garante o salário. Eu adoro tocar violão, nas horas vagas sou ator, mas ganho a vida como professor e na minha atividade uso todas estas competências e é isto que me garante diferenciais. Viu como é quase o contrário do que falamos acima? Equilíbrio é a chave do sucesso.

 4 – Busque a carreira em Y. Não espere se formar para começar a trabalhar (a não ser que queira seguir a carreira acadêmica). Vá experimentando e descobrindo onde você é bom (tem habilidade), onde gosta de estar (tem afinidade), onde sabe como funciona e melhora o processo (conhecimento e inovação) e depois faça um balanço. Em todos nós, existem múltiplas características que podem nos ajudar a construir uma boa trajetória. 

O estudo é complementar e direcionador, mas o mercado tem dificuldade de absorver pessoas sem experiência ou que estejam acima do perfil solicitado. É paradoxal, mas isto é só o começo da trilha, depois piora. Enquanto não “vive o grande sonho”, trabalhe, ganhe experiência e desenvolva flexibilidade.

 5 – Ninguém faz nada sozinho. Aprenda a aprender e a desprezar a decoreba, pois mesmo que os iluminados gestores de currículos educacionais teimem em insistir em “atualidades” e “cidadania”, isto não será levado em conta em sua profissão. Lá o que interessa é saber fazer. E, para saber fazer é preciso, primeiro de tudo, saber aprender e gerenciar visões de contexto. Isto o Google não ensina, portanto, valorize o trabalho em equipe e, principalmente, saiba ser diplomático.

Estou cansado de ver excelentes técnicos e profissionais que não conseguem liderar, a despeito de conhecerem mundos e fundos. Não seja assim, ou nunca será promovido. Deixe de entregar resultados e será demitido. Fique fora do perfil e não será contratado. Passe de determinada idade e esqueça o mercado de trabalho. Neste mundo, é bom poder contar com mãos amigas e os melhores relacionamentos são os que nascem da convivência no aprendizado.

 Naturalmente, não se pode abarcar de todo estas questões, mas quando nos inclinamos a pensar na formação do indivíduo e seu correto direcionamento, devemos ter em mente que o respeito pelo seu modo de amadurecimento deve fazer parte dos planos desta empreitada. Esta abordagem deve se estender para todas as instâncias da integração que são necessárias, para que se evitem perdas profissionais, organizacionais e, porque não, afetivas e sentimentais.

O trabalho deveria servir de âmbito nobre, plataforma necessária para garantir a evolução, consolidação moral e completude de uma pessoa, mas muitos são jogados nas cadeias produtivas tal como carvão no alto forno de todas as produtividades. E de lá são forjados todos os erros e desmandos que nos alcançarão, em alguma curva oculta de uma crise ulterior. Dai tem a piora de clima, conflitos, presenteísmos, absenteísmos, assédios e a bola de neve vai crescendo cada vez mais.

 O lado bom, é que aí chamam a gente para ir lá e dar uma palestra motivacional…

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