Delegação e Delargação

Como hoje é fácil mandar! Tudo é sinérgico, assertivo, estratégico e voltado para ações que produzam resultados. Em outras palavras, a lógica é a de mandar fazer. Aliás, você não mandou em ninguém hoje? Pare de perder tempo! Faça um curso on-line de liderança e saia na frente.

Num mundo onde os processos instantâneos parecem ter dominado o ecossistema produtivo, temos esta realidade mais escancarada. Dentro de uma unidade produtiva ou de serviços, em suas subdivisões, todo mundo pensa que sabe alguma coisa só porque acessa a web. Isto vale, também, que estão na vanguarda da liderança, pois já fizeram um Ead promocional e agora estão aptos a nos liderar.

A geração Y nem se fala, pois já nasceram para mandar em todo mundo. Mas, estes não são os piores. O caso clássico é aquela pessoa que está já há algum tempo na empresa e pensa que lidera, quando na verdade, desconhece que a essência da liderança não é ter lido o banal Monge e o Executivo, mas saber delegar corretamente, entre muitas outras coisas. Eu falo assim, porque vejo isto nos cursos que ministro para lideranças: Quase Ninguém se Assume como Líder. Querem que alguém os “autorize” a Liderar ou me pedem para dizer quais as ferramentas e atitudes que se espera de um líder.

Aliás, alguém já disse que a existência precede a essência. Então, basta recorrer à história e verificar que liderar significa mais que influenciar pessoas, pois elas são heterogêneas em seus interesses e competências. Se você quiser ser bem sucedido nesta empreitada é preciso ter a capacidade de dar-lhes objetivos comuns, orientando sua trajetória.

Além do mais é preciso ir aonde as coisas acontecem, só que com olhos para ver. Coisa que os japoneses chamam de “Gemba”: o palco das operações é a arena da rentabilidade. Passear pelas instalações da empresa, com a cabeça cheia de burocracia ou apenas lamentando a falta de resultados não adianta nada. Mesmo porque só reconhecemos a excelência em um líder, caso ele seja extremamente competente e inspire confiança, à despeito das adversidades.

Quer um exemplo? Imagine uma empresa onde a equipe da manutenção possui cerca de 50 funcionários cada um com sua responsabilidade. Mas, o gestor não acompanha, porque tem relatórios a fazer ou está abaixo de sua dignidade tratar com a equipe. No papel, tudo planejado e na vida real, vários erros no setor. Quando finalmente eles são identificados, o próprio gestor prefere ir resolver a ter que chamar a atenção do funcionário. Por quê? Pela falácia da gestão virtual. O programa de avaliação de desempenho é respondido pelo próprio gestor que, para garantir seu emprego ou pela falta de gerir seu tempo, dá 100% para toda a equipe e por isto fica de mãos atadas na hora do aperto, quer dizer: quando vêm os problemas.

A diretoria também fica confusa quando os resultados não batem e confiando nos números apresentados (já que a equipe é dez) resolve endurecer contra os clientes, pois eles “só reclamam”. Mas, a verdade oculta é: As pessoas estão deixando de viajar nos ônibus, porque eles quebram muito e a empresa perde competitividade por falta de delegação assertiva. Agora: desculpas sobram a todo o momento e servem de cortina de fumaça.

Quer mais? Noutra empresa de serviços, as reuniões gerenciais são realizadas mensalmente. Os gerentes se reúnem para apresentar indicadores e resultados detalhados do setor. Mas, como na realidade eles estão imersos no operacional, portanto, bem longe do estratégico, acabam entregando as coisas para cumprir tabela. Não raro a diretoria se depara com indicadores desatualizados, informações incorretas, inconsistentes e o gestor não sabe responder aos questionamentos. Sendo assim podemos concluir que não houve uma análise como deveria ter sido feita.

Então, quando o responsável é prensado contra a parede ele se safa com as pérolas desculpistas: – Eu pedi ao fulano para totalizar as planilhas, mas não consigo que acertem! Tenho que fazer tudo sozinho! O processo está errado, precisa mudar! Falta pessoal! A concorrência tem preço mais baixo! E a ladainha segue em frente… E salve-se quem puder. Clássico caso de quem chorar mais perde menos. Não duvidem: são casos reais.

Como podem ver o caso não é de delegação, mas delargação. Esta praga funciona de uma maneira muito simples: Eu sou o chefe e você subordinado. Pega e faz aí, eu estou ocupado com tarefas importantes. Aquele que recebeu a incumbência, por sua vez – se tem algum poder -, repete a frase e no final, um trabalho que exige perícia, competência e liderança, está deixando de ser feito. Na melhor das hipóteses está sendo conduzido por uma pessoa sem comprometimento nenhum (e que reclama com razão do excesso da carga de trabalho).

É fácil falar. Deixar uma dúzia de palavras no ar e, depois ir embora achando que todos entenderam e que farão conforme você pensa. A única coisa que ocorrerá será o infame deixa que eu deixo, quer dizer: ninguém fará o necessário e muito menos superará expectativas, já que a sensação que fica é que as coisas nunca mudam!

Deixe o livro na estante e lidere. Ninguém poderá fazer isto por você! Liderar envolve checar suas fontes, mapear as operações, pessoas e processos atuando de forma a antecipar-se a contingências com autoconfiança. É o básico. Delegar é a contrapartida da liderança eficiente. Mas delegar também não é coisa de última hora. Significa passar responsabilidades, atribuições e também autonomia para a realização correta do que é exigido. Assim, se o gestor não preparou a pessoa para receber estas tarefas, tudo irá mal ou simplesmente não acontecerá nada.

O líder, também é obrigado a repartir seu conhecimento e tempo, multiplicando expertises para estabelecer canais de qualidade e pontos de escuta, em todas as fases do processo. Não basta apenas dizer: estamos na etapa B, então iremos para C e depois ao D. Todo processo é cego, enclausurado em si mesmo. Por isso existe a necessidade de pessoas para operá-lo e líderes para guiar as pessoas, rumo à melhores resultados.

Isto quer dizer que além da receita, se busca a melhoria contínua e a qualidade de vida. O gestor que passa o dia a preencher requisitos e formulários e se esquece da entrega de resultados tangíveis, com foco também no longo prazo, falha do início ao fim. Tente ver as coisas por este ângulo, antes de imaginar qual sua próxima desculpa ao diretor.

Não se esqueça que, no mundo veloz e mutável onde estamos estas podem ser suas famosas últimas palavras.

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