Ensinar a Pensar

Recebi, semana passada o pedido de mais uma universitária que queira, porque queria, que um consultor lhe ensinasse como preparar um treinamento. Ela estava desesperada porque tinha que apresentar um trabalho na faculdade e não sabia como fazer. Então, ela pensou assertivamente o óbvio nestes tempos de superficialidade: achar uma receita de bolo. Algo fácil e rápido para apresentar ao professor, sem “perda de tempo” e que resolvesse seu problema.

Eu, penalizado,  (não devia) acabei mandando um resumão. Só para contentar à pessoa, anexado a um email em que eu dizia que o conhecimento não se pede, se conquista!

Chegando agora à noite no meu escritório, resolvi postar mais um artigo e me deparei com algo que escrevi em 2008 e que cabia bem na situação. Então, segue abaixo uma reflexão sobre a atitude empreendedora. Ela não deve ser somente atrelada às empresas, mas – principalmente – à vida de cada um. Devemos todos, aprender a pensar e não adquirir pensamentos.

Hoje as coisas mudam e é preciso saber avaliar cenários. O empreendedor é aquele que identifica oportunidades, para ultrapassar as marolas internacionais e o cortejo de vaticínios, que se lhe sucedeu. Também é aquele que consegue formar novos modelos mentais. Então, nada melhor que verificar qual peça está faltando na engrenagem do sucesso, para que possamos contribuir para a melhoria da espécie empreendedora.

Às vezes, em meio a tanto progresso e tecnologia, esquecemos de coisas básicas e cometemos erros decimais. Foi pensando e pesquisando que achei a melhor receita moderna para acalmar mercados, formar líderes, desenvolver competências, gerir empresas e governar nações. Esta abordagem é baseada numa metodologia antiga: educar para não ter que punir. Muitos institutos de ponta, já despertaram para o futuro e a adotam. Merecem aplauso. O resto, continuam lesmas lerdas.

Este método é baseado num texto que garimpei na estante, que talvez ajude ao resto do país, a cair sua ficha, eis as sábias palavras, inclusive para alunos e professores:

“Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem.

Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida. Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado.

A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infreqüente nos depararmos com homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram tão pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública.

Em suma, o entendimento (das pessoas) não deve aprender pensamentos, mas aprender a pensar. Quem (aprende) deve ser conduzido, se assim nos quisermos exprimir, mas não levado em ombros, de maneira a que no futuro seja capaz de caminhar por si, e sem tropeçar.”

Eu confesso que (quando pesquisava meus guardados), não pensava encontrar este texto tão ardoroso e preciso. O autor, Immanuel Kant, diz que não podemos, simplesmente, adquirir instrução sem aprendermos a aprender, quer dizer, nada adianta apenas a soma de competências ou a mera acumulação de informações: é preciso aprender para que serve o conhecimento, como também, saber como extraí-lo e onde encontrá-lo.

Isto, porque eles nada valem sem que sejamos coerentes, sensatos e tenhamos comportamentos racionais. O que ocorre, atualmente, no entanto é o contrário: busca-se adquirir a instrução, sem antes ter-se aprendido a pensar e, posteriormente a agir com razão. Com isso, os resultados são catastróficos ou no mínimo decepcionantes.

Não são só as pessoas que fazem isso. As próprias corporações também agem assim, em função de garantir resultados, sem saber que eles não serão sustentáveis, por esta via. Estas são palavras que não passaram e, se tivessem sido ouvidas, quero dizer: que tivessem sequer sido lidas, e não haveria tanta besteira sendo feita por aí na sociedade, no ensino ou na vida cotidiana.

O quanto mais de conhecimento, ciência e bom senso não estão sendo utilizados, apenas pelo simples fato que os profissionais e pessoas simplesmente não os conhecem? E quem já mediu o quanto se perde, pela ignorância voluntária de muitos, quando bastava um pouco mais de atitude para o esclarecimento?

E, quantas mesmas desculpas sobre o tempo que não se dispõe para aprender, quando o que realmente é importante, não é dominar todo o saber, mas simplesmente aprender a pensar!

Ah! O texto tem nada menos que 246 anos, mas vale até hoje! Foi retirado do «Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766» da coletânea de textos Theoretical Philosophy, 1755-1770 (edição de David Walford e Ralf Merbote, Cambridge University Press, 1992), pp. 2:306-7, com tradução de Desidério Murcho.

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