O Fator Humano

Uma das temáticas mais recorrentes na atualidade é a da chamada auto-ajuda. Do ponto de vista do senso comum podemos até aplaudir a enxurrada de publicações, filmes, vinhetas e discursos baseados nestas estruturas. Talvez, nestes tempos bicudos de juros altos, desemprego e baixa remuneração se nos detivermos a pensar, perceberemos que muitas pessoas ganham a vida desta maneira: ensinando os outros as fórmulas do sucesso, da felicidade, de vendas, de como as coisas realmente são… Trata-se de uma verdadeira indústria, que a todo vapor produz material para suprir a demanda reprimida.

Mas, se refletirmos – que é uma etapa mais profunda do pensar – não teremos dificuldade em perceber que esta demanda é, na verdade, alimentada pela angústia e insegurança das pessoas. O que sentimos, na verdade é um vácuo de liderança e de caminhos a seguir. O ideário de mercado, o discurso econômico, causa tremendo impacto nas pequenas e inconstantes unidades da sociedade, que são os indivíduos. Deste modo afligidos, buscam adaptar-se, adequar-se às solicitações dos poderes de mando, da técnica e da cultura.

Mas este é um discurso do horror, da exigência contínua das frações matemáticas expressas nas infinitas casas depois da vírgula. Há uma prática de devastação nas micro redes de poder e consumo, que compromete a todos com a velocidade das transformações tecnológicas. Por conseqüência, com os discursos que geram saberes e expressam poderes, dominando as relações em todos os interstícios. Foucault tinha razão!

Exigências futuras para capacitação e desenvolvimento de competências, funções derivadas do contínuo avanço e flutuações na ordem mundial, respostas ainda não mapeadas: tudo isto está cada vez mais na pauta do dia. Mas poucos sabem dizer onde se dirigem estas condições e pra quê a urgência dos imperativos. Podemos identificar em todos os setores um comportamento alarmista, típico da chamada defesa da própria causa, que é quando gritamos slogans para nos defender de um contexto possível. Gritamos e movimentamos setores, veículos de massa e organizações, sempre a nosso favor (embora não saibamos se os que lideram são nossos legítimos representantes) mesmo que se esteja a anos luz de qualquer verdade ou equidade. Passado o furor, esquecemos.

Perdemos mesmo a noção de que podemos também ser o alvo destas sistemáticas e cremo-nos a salvo. No entanto esta situação é muito frágil e, para sentirmos segurança, basta apenas nos apoiarmos em pesquisas e especialistas. Mas, o perigo é o modo de se apropriar, recortar, isolar esta ou aquela asserção de um pensador profundo e transforma-la em techné (técnica), em conceito, em metáfora, esquecendo sua raiz, as verdadeiras preocupações originais. Ou quando o que fala é apenas porta-voz de um lobby qualquer e tem interesse manifesto que as coisas se passem assim, ou assado. Isto é estar a serviço do capital alucinado e não da humanidade, conhecimento ou da ciência.

Exemplo claro deste estado de desnorteamento é a freqüência com que organizações costumam tomar decisões absurdas na hora de preparar uma descrição de cargo e os profissionais que deveriam esclarecer os erros dos tecnocratas, simplesmente dizem amém. Há um mecanismo de repetição que é disparado e que possui a sinistra propriedade de lançar uma cortina de fumaça sobre a realidade. E, assim, ao invés de reparar o engano, buscam encaixar a peça redonda na caixa quadrada, porque “assim são as coisas, assim funciona o mercado”.

São os escravos do discurso, estão abaixo das ordens do mecanismo e perderam algo de si mesmos. Perderão muito mais ao correr dos anos, pois um dia eles também cruzarão a implacável marca dos quarenta anos. Depois disso, se não tiverem se preparado, se não conseguiram alcançar a sonhada estabilidade funcional, entrarão no próximo corte. Tentarão retornar e ninguém mais os reconhecerá, irão abaixando as pretensões para, no final, vender balas no semáforo ou serão atendidos pelos psicanalistas, pois, de acordo com os scripts não servirão para nada produtivo. Sim! Estes mesmos que anteriormente nos ditavam regras e catalogavam competências.

Existe também a ameaça de que virem consultores e inflem mais o saturado mercado dos palpiteiros e que nos venham com suas fórmulas do sucesso e felicidade. Mas enfim, o que fazer? Há sempre muito que fazer, basta capacidade e vontade. Há uma notória crise de liderança. Mas o que se deve entender por isso? Devemos compreender sob a ótica do que os filósofos, especialmente os estóicos chamavam de “o cuidado de si”. Máximas e práticas de sabedoria, justiça, precaução e visão de longo prazo.

Mas o que vemos hoje? O declínio do comprometimento, dedicação e crescimento, uma vez que não parece haver ambiente adequado à sinergia, integração, criatividade e expectativa de ganho, estabilidade ou carreira. No grande circo que se apresenta o espetáculo é monocórdio. Parece que somente consumindo soluções prontas é que se apresentaria, então, uma maneira de se vencer a ilusão e o desânimo. Também aqui há uma distorção, pois informação não confere conhecimento e em qualquer carreira, de modo a poder habilitar-se ao progresso é necessário obter o diferencial das qualidades individuais e possibilidade de expressão moral com base em: Postura, Estudo e Objetivos Claros.

Temos sentido falta do fator humano: Não somente a natural adaptação do homem ao meio. Mas aquele élan vital que preenche o vazio da busca e remete a uma instância criadora. Mais do que a eficiência em sistemas administrativos, precisamos ter maiores qualidade relacionais, geradoras de motivação. Mais que sistemas de avaliação e decisão através da mera competição, propor sistemas de incentivos que produzam expectativas e realizações.

Mas, estas estruturas somente são funcionais, uma vez baseados em posturas éticas e no exemplo diário. Eis o papel do líder que deve ser resgatado: exemplo, capacidade e orientação. Excelência humana e atuação responsável como novo paradigma é a pedra de toque de um futuro mais consciente. Somente assim será possível vencer a escalada das métricas aviltantes e recolocarmos a capacidade, respeito e meritocracia como fatores fundantes de uma excelência na gestão. O resultado será líquido e certo: retorno e rentabilidade a níveis jamais conhecidos.

E o que é melhor: sem agredir tanto a dignidade humana e os recursos do planeta.

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