A Ficha e o Candidato

Nestes tempos de “aceleração” de consumo, estamos às voltas com uma massa inumerável de solicitações, pedidos e tentativas de venda, que nos chegam diariamente. Entre elas, os pedidos daqueles que procuram por uma posição no mercado de trabalho. A tentativa é legítima, e eu mesmo quando posso, repasso vagas à minha rede de contatos. Mas, quem se der ao trabalho de analisar, mais detalhadamente, as informações que aterrisam em nosso email, pode ficar seriamente desmotivado. Toda vez é a mesma coisa: Eu não anunciei nada, mas chove currículos em minha caixa postal. Imagine nas máquinas dos selecionadores….

Outro dia, um destes currículos me chamou a atenção. Não deveria, mas resolvi responder, enumerando os equívocos, dando dicas, corrigindo heresias mesmo correndo o risco de não ser compreendido. Depois que enviei a missiva (um email de 10 parágrafos pode apavorar as pessoas, que normalmente tem dificuldades para ler mais que 4 linhas), vi que poderia dar destinação mais útil à discussão, caso propagasse a informação à todos que vagam na erraticidade da web, procurando uma nova colocação e não sabem porque ninguém os vê. As dicas abaixo podem ajudar a sua visibilidade, se estiver disposto a ler até o final.

Ah! É claro que o destinatário não respondeu, então vejam vocês o que aproveitam deste pequeno manual de marketing estratégico para desempregados. Sem ironia!

Caro amigo:

Recebi seu currículo, embora não haja solicitado ou tenha vagas. Mas, em seu panfleto, não pude deixar de notar coisas que, certamente manterão você na sombra do desemprego por muito tempo. Por exemplo, no email há um pedido para encaminhamento. Eu não lhe conheço e você antes de me dar bom dia, pede que eu encaminhe seu material… Nestes tempos modernos, não confie que alguma pessoa irá enviar suas mensagens “aos cuidados de…”, só porque está no campo assunto.

O comportamento mais provável é deletar, imediatamente, o incômodo email. Esqueça tudo o que lhe ensinaram (se for o caso) e inove. Ainda mais se tem pretensões na área de vendas! Para buscar algo, o mínimo necessário é saber o que se deseja, descobrir como fazê-lo e, principalmente direcionar seus esforços com eficiência.

Pense bem: hoje em dia, com a massificação e facilidade das comunicações e instâncias virtuais interativas, padecemos de um gigantesco overflow. Quer dizer: excesso de demanda informativa e aumentos diários na carga de trabalho, fato este que leva – principalmente um selecionador – a desconsiderar quaisquer solicitações fora do quadrado. Mude a estratégia e foque onde você tem mais, chances. Analisar seus pontos fortes e fracos já é um começo para isto. Se você é vendedor, cuidado: Saber oferecer é tudo. Venda inteligentemente e não arduamente (sell smarter, not harder). Aliás, o que você quer mesmo vender? Você não disse!

Depois, faça um esforço e pense em cenários, não apenas em sua necessidade de trabalho. O seu currículo tem que cumprir a proeza hermenêutica de informar, convencer e comprovar os fatos ali narrados. Se possível, em uma só folha, no máximo duas. Além disso, a apresentação deve especificar detalhes de suas competências e realizações, não de sua autopercepção (seus elogios auto-referenciais).

Desculpe, mas em nível organizacional, ninguém quer saber o que você acha de si mesmo, apenas se possui ou não experiência e conhecimento suficiente. Deste modo é imperativo listar as realizações, detalhes sobre operações e responsabilidades no histórico profissional – de forma estruturada e compatível com a escolaridade informada. Aliás, quando puder volte a estudar, pois o futuro já chegou. Não dá para deixar um departamento na mão de uma pessoa que não esteja atualizada ou há décadas longe da faculdade.

E mesmo que você seja um expert, repetir a mesma descrição é ponto negativo no currículo, bem como informar áreas discrepantes ou não complementares, pois o seu foco é em desenho industrial, vendas ou treinar os funcionários de seus clientes? A redação pode comprometer mesmo o profissional capacitado. A ânsia de enumerar qualidades, acaba tendo o efeito oposto ou você acha mesmo que o selecionador deveria pesquisar sobre dados adicionais? Ele não tem tempo para isto, e, francamente não se interessa por você mais que 3 minutos…

Outra coisa é a falta de objetivo: currículos sem mencionar área ou cargo não passam nem pela primeira peneira. Se você tem experiência em multinacionais, porque não conta mais detalhes sobre suas realizações? Aliás, se você sabe alguma coisa de diferente ou pode abordar a questão em termos práticos, porque não fazer? Faltou o dizer de suas funções. Descrição de cargo não é atestado de competência, o que importa é a quantidade de responsabilidades e a maturidade técnica e psicológica do candidato.

Nomenclatura corporativa é mero amortecedor psicológico que pode esconder coisas estranhas e atividades operacionais: Chefe de observação de frota, pode ser um charmoso epípeto para zelador de garagem. Aliás, como você comprovaria sua descrição funcional, caso fosse solicitado? E em relação à qualidade?

Parei para lhe responder, porque acredito que estas dicas lhe ajudarão. Você é parte de uma questão importante no cenário do mercado de trabalho, ou seja: a eficácia da divulgação de currículos e quais os canais existentes – inclusive as formas-padrão aceitáveis para fazer-se “achar” pelos futuros e/ou prováveis empregadores. Claro que não entrarei no mérito ético de questionar o óbvio: são sociopatias excludentes, que designam estes padrões e muitos podem ser acusados de alto teor de lesa-humanidade.

No entanto são moeda corrente nas práticas de seleção e ninguém irá tirar o foco dos resultados. A lei envelheceu e há uma determinação econômica do mundo. Perdemos de certo modo o elã humano, pela sujeição à novas instâncias: somos contribuintes, consumidores e cidadãos. O desempregado, normalmente é um profissional invisível. Mas, esta é justamente a sua montanha, cabe a você movê-la. Não fique aí, parado! Tente aprender as novas linguagens e supere obstáculos. Reinvente sua carreira através da atualização e considere outras formas de atuação profissional. Se quiser, acesse meu site e baixe meu artigo sobre os currículos modernos, veja outras fontes também.

O grande problema é que, devido à velocidade exponencial das mudanças, a terceirização de recrutamento é uma realidade. As empresas lançam um desafio em forma de perfil e os profisisonais identificados como aderentes a ele são selecionados. Normalmente não se vê o entorno demográfico, ou seja, o capital humano em suas relações com o meio social. Assim, para não falar muito difícil, pode concluir que, a grande jogada, atualmente é aumentar as chances de ser notado e selecionado. Para isso, deve evitar tudo o que irrita aquele que recebe emails ou contatos virtuais.

A melhor maneira de ajudar este profissional (que, aliás, pode estar buscando justamente Você!) é oferecer um material profissional de trabalho. Não corra o risco de parecer amador ou imaturo em sua apresentação, pois – especialmente no Brasil – têm-se a questão do “jeitinho brasileiro”, da flexibilidade total de caráter e do discurso, que as organizações não aprovam. Tente gerar empatia e confiança em suas competências.

Faça o percurso contrário de milhares de candidatos a uma vaga: revise sua apresentação de forma que possamos ver, através dela, o que você indica possuir. Ensaie o que vai dizer e como se comportará, além de pesquisar tudo sobre a vaga. Naturalmente, além de tarefa técnica, conforme pudemos comentar existe outro ponto importantíssimo a ser considerado. Se o caminho virtual da comunicação, por exemplo, como um simples email, se dá em termos de campo de transmissão eletrônico-energético, via computador, então falamos de decodificação de energia.

Então use a mais poderosa energia à sua disposição e modifique o trajeto de seu currículo. Faça, através de seu pensamento que ele encontre o caminho até as mãos daquela pessoa que poderá avaliá-lo corretamente e oferecer a possibilidade de trabalho. Se ele estiver a contento, será como bater na porta. E ela se abrirá. A fé, aplicada às coisas práticas, nada mais é do que a manifestação de um campo de energia, que por sua vez pode fazer toda a diferença. Sem ela, as montanhas são muito difíceis de mover.

Naturalmente, para os que fazem a aposta na transcendência, diria filosoficamente Pascal. Se não é o caso, paciência. Ao menos, refaça seu currículo ou delete meu email de sua lista.

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