Absenteísmo tem Cura?

Retomando alguns artigos que escrevi e foram bem comentados na mídia, recentemente, reapresento a questão das práticas que as organizações têm para diminuir o índice de faltas e atrasos, o chamado absenteísmo. Muitas vezes a miopia é tanta que não se enxergam coisas básicas, como a questão do tratamento dado a estas situações e no relacionamento em geral. É bem verdade que muitos colaboradores fazem pouco caso das normas da organização, e utilizam o campo profissional de forma imatura. Mas, também é fato que as empresas e muitos gestores não sabem bem lidar com pessoas.

Para quem quiser maiores detalhes, acessem a entrevista que dei para a Revista Profissional e Negócios, sobre o assunto, clicando aqui. Para os leitores, segue abaixo a íntegra do texto que foi publicado com bastante bom humor, sobre este problema que afeta as organizações e, por extensão, acaba se transformando num problema também para os funcionários.

Alô? Vocês têm palestras para casos de absenteísmo?
– Pode passar maiores informações? Trabalhamos sob demanda dos clientes…
– Ótimo! Vou querer uma palestra. Rápida. No máximo 1 hora. Vapt-vupt.
– Esta questão deve ser bem pensada. Precisamos ter cuidado na avaliação…
– Olha! Vamos ser mais assertivos? Quanto custa? Tem desconto? O coffee break e hotel estão no meu centro de custo. Será sexta-feira à noite. Todo mundo convocado. Sem extras. Manda hoje?
– Veja bem. O caso não pode ser tratado desta maneira…
– Concordo. Precisa ter efeito imediato. Tratamento de choque. O diretor pediu para resolver o problema das faltas e atrasos e disse para chamar um consultor. Estou cotando com fulano e beltrano. Você sabe, né? Três orçamentos, o menor leva e sem essa de “valor agregado”.
– Mas… Precisamos analisar a situação: Como está o clima? As ferramentas? Os processos? Não é só chegar lá e dizer a todos: Parem de se desmotivar. Cheguem no horário ou então créu…
– Ai, ai, ai! Já vi que liguei para o lugar errado, não é? Quanta dificuldade! 
– Ok. Ok. Como está a situação?
– Prá mim são um bando de encostados. Vivem com atestado na mão. Cheios de desculpas: metrô, greve, sistema, chefia, família. Quem manda ter uma penca de filhos? Ninguém está comprometido. Falta vergonha na cara. Reclamam de tudo, só pensam em feriado. Um inferno. Entendeu?
– Acho que sim. Desde quando está acontecendo?
– Faz uns seis meses. Logo depois que vim para cá. Houve umas mudanças e acabamos com a farra do pessoal. Agora estamos enxutos e sem zonas de conforto. Você acha que uma hora é suficiente?
– Se eu falar a verdade, você não me contrata!

O que temos aí não é um diálogo surreal. Eu atendo duas ou três solicitações destas por semana. Trata-se da aquisição de “vacinas” contra os males das organizações. Nada mais natural, numa economia de mercado, onde os compartimentos são estanques e as métricas definem normas e procedimentos irredutíveis. Nossa cultura ocidental tem uma maneira peculiar de lidar com as coisas: precisamos de chancelas, de carimbos e rótulos. Como tudo está engendrado numa “cadeia de produtividade”, o pensamento indutivo supõe que cada um tem seu lugar e serve para algo. Se não for professor, não pode ensinar; se não for especialista, não pode opinar. E a recíproca é verdadeira: geólogos não consertam sapatos e maridos não lavam a louça. Admirável mundo novo!

A lista continua: se faltar uma peça, tem que buscar no almoxarifado (se for Just-in-time, danou-se). Se o caso é serviços, tem que chamar alguém do ramo. Quando o problema é na equipe ligam para o consultor. Enfim, para tudo tem uma voz “autorizada” a falar e que traz a solução para os problemas que nenhum outro membro da sociedade está habilitado a resolver. Naturalmente, este processo é até lógico, o duro é a maneira em que estão dispostas as coisas e forma de aquisição. Em algum lugar do passado as pessoas se preocupavam com uma visão global e orgânica, hoje se busca o core business.

Explico: como tudo é produto, quando aparece uma necessidade a ser resolvida, se vai “ao mercado” buscar o pacote de salsinha, quer dizer, solução. Se o caso é absenteísmo, presenteísmo ou um “gap” de competências, as pessoas procuram um preparado, uma técnica, uma mistura semipronta que resolva a questão. Basta fazer uma cotação e comparar. Simples. Estratégico.

Aí começa o non sense. Uma gelatina está pronta, após adicionar água. Será que uma equipe maltratada e mal orientada consegue ser motivada pelo showman mais caro numa sexta à noite, sabendo que na segunda vão encontrar a mesma cadeira quebrada e o chefe carrancudo? Vamos lá, meus Campeões! Motivem-se! O Futuro está em suas Mãos! Vocês são Vencedores… Putz! Ninguém merece…

Se há uma cura para os males das organizações, estes procedimentos devem primeiro, interpretar relações. Segundo: devem mapear ferramentas, processos e interações. Finalmente, precisam estar alinhados com as estratégias que realmente trazem vantagem competitiva. Entre elas a racionalidade das análises, clima, contexto e ações produtivas. Neste meio tempo, atender às necessidades das pessoas a partir de políticas claras e ações sustentáveis que foquem qualidade e produtividade.

A cura dos variados estados patológicos organizacionais envolve uma técnica diagnóstica, 360º, que desmonte os falsos indicadores e potencialize os aspectos positivos das situações. Sempre haverá os irresponsáveis. Mas, via de regra, ninguém motivado se atrasa com freqüência. E, mesmo se o problema for esse, o que impede a compensação com um banco de horas? É preciso criatividade para viver numa cidade onde o colapso dos transportes é uma realidade. Faltas médicas ou entrevistas de emprego para fugir do ambiente insalubre? Para o primeiro, composição e acordo; isto resultará em gratidão e, com isso aumento da fidelidade à empresa. O outro é indicador da saúde e competitividade: poucos fogem de um lugar promissor ou onde a convivência é saudável. 

Desta maneira a perfeita sintonia e integração entre missão da empresa e missão pessoal é o que mantém os desafios superáveis. Uma assessoria externa pouco pode fazer se não contar com o apoio da vontade realizadora dos profissionais que nos contratam. Resultados sustentáveis vêm de estratégias consistentes e devem alinhar três fatores-chave: Retorno, Inovação e Sustentabilidade.

O primeiro é o óbvio: organizações necessitam lucrar. O segundo permite obter resultados com melhores custos e isto quer dizer sobrevivência. O terceiro significa produzir sem destruir; liderar sem coerção ou desrespeito e recompensar sempre o mérito. Quem quer ouvir aquele que clama no deserto? Somente os mais sábios se inclinam diante das propostas éticas e com algum viés social. Estes geralmente ganham mais e são respeitados por suas posições comprometidas. O resto parece seguir a cartilha do chicote.

A palestra é um tônico revigorante, uma medicação para despertar a sensibilidade, fortalecer o sentimento de auto-realização e cooptar o engajamento dos melhores valores. Funciona muito bem para aqueles que estão buscando destacar-se na organização. Mas não é uma panacéia. Se o caso é grave, é preciso tratar, além das pessoas, as lideranças, as políticas e os valores. Todo um modelo precisa ser analisado e suas resistências mapeadas, com auto reflexão. Senão nada funciona e ainda nos traz surpresas.

É como a mãe que leva o filho ao psicólogo e, desesperada, reclama que ele não obedece. Na maioria dos casos, quem precisa de tratamento é o adulto e não a criança. Ela só responde aos estímulos de seu ambiente e, pasmem: possuem apurado senso de realidade e são sensíveis às invisíveis falhas alheias.

E na vida profissional? Quais estímulos da organização afetam nossa rotina? O que se poderia fazer, para evitar os gargalos crônicos? A resposta é bem simples: Dedicação e Boa Vontade.

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