A Técnica e o Indivíduo

Ano passado, lí um artigo sobre “motivação”, que me embrulhou o estômago. O autor repetia a fórmula de ataque hobbesiana “primum vivere, deinde philosophare”. (primeiro viver, depois filosofar), para dizer aos sonhadores que saiam da inércia e primeiro cacem o pato, para depois pensar no molho. Thomaz Hobbes acreditava que o homem é o lobo do homem e, por isso, devia ser rigidamente controlado. Mas, era apenas um microartigo, tipo “formulae de bolum”, dirigido ao público profissional, de forma a explorar o emotivo e o gajo acabou misturando alhos e bugalhos. Afinal se não se souber como caçar o pato, nem tem janta nem molho. Algum conhecimento sempre é necessário, pois a prática não prescinde da teoria.

Mas, mesmo desprezando a filosofia, como é comum nos “homens práticos”, o que ele queria mesmo dizer é que, nas organizações o conhecimento é ilusão e a “ação” é determinante. Seria óbvio, se não fosse ululante a ironia, pois a vida corporativa exige isto: faça e fique quieto. Deixe que nós tenhamos as idéias. Se mexa, mas não saia de seu lugar!

Por causa deste foco simplista na “ação”, muitas das pessoas, empresas e organizações que conheço, parecem ter sido sistematicamente treinadas a engolir seus sonhos e desacreditar de seus projetos. Até as saudáveis colocações espontâneas, que criam ou melhoram processos e atitudes, parecem vigiadas por um patrulhamento invisível. Há uma ordem que subjaz aos discursos, obrigando as coisas a ficarem em seus lugares. Um verdadeiro abatedouro dos melhores esforços empreendedores.

Premidas por uma discursografia “estrutural”, equipes e lideranças são levadas a uma rotina de realizar resultados e aumentar exponencialmente as metas, pensando somente no limiar operativo, desprezando a reflexão. O fazer, a técnica, parece ter adquirido o controle sobre a civilização corporativa. Basta alguém aprofundar o nível relacional, planejar e apontar conseqüências ou horizontes e já paira a desconfiança: ele estará filosofando? Viajando na maionese? Pobre de quem pensa assim, pois crê ser determinado pelo objeto. Não adianta depois amaciar, dizendo: – Olha você é um bom homem, pena que pensa! Deixe isto para as horas de lazer. Não vá perder o sustento da família com isto, viu?

Schopenhauer já dizia que uma idéia tem três etapas: primeiro é ridicularizada. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceita como óbvia e evidente. Levemos a filosofia às organizações: Deixe que uma empresa comece a inovar para vir a ladainha: Isto não vai funcionar! É perigoso! Não vai dar lucro! Atrapalha o “mercado” etc. Todos temem as vantagens competitivas. Contudo a recíproca é verdadeira: Deixe algum “colaborador” querer efetivamente colaborar, inovar e redescobrir eficiências e é silenciado. Quem não teve uma boa idéia e foi fulminado por um olhar da “chefia”?

Associar conhecimento com perda de tempo é uma asneira típica das organizações de baixo padrão. Elas precisam manter o capital humano na ignorância de sua ineficácia sistêmica. E, muitas vezes, da falta de critérios éticos. Mas, empresas não existem! São espectros jurídicos, relações nominais de produção ou saber-poder. O que existe, realmente são pessoas, ações e suas crenças. Elas podem ser vencedoras e mesmo assim tolher a fonte da criatividade. Em todas as relações corporativas, quem fala é porta-voz de uma verdade ou interpretação. Entretanto, esta condição não significa nada além da expressão de um determinado ponto de vista. Resumo: as empresas, o mercado, o mundo são aquilo que nós próprios aceitamos e construímos dia-a-dia.

O rumo ao concreto, este trajeto que esgarçou o tecido social do mundo, está fundamentado na nulidade da pessoa. Por isso, suas prescrições são acompanhadas de julgamentos que, em nenhuma hipótese consideram o singular. Tudo deve ser induzido numa generalidade amorfa e extração estatística. Em sua conformidade a tabulações, métodos e, principalmente fácil reposição ou remanejamento de capitais humanos, o indivíduo desaparece.

Dizem para aproveitar o dia, primeiro fazer e depois filosofar. Querem navegar, mas não há quem esteja vivo para manobrar o barco! Hoje se contratam caríssimos consultores “reconhecidos” para formar marinheiros via DVD motivacional. No peito, o coração já não pulsa, mas a apostila “vai de encontro” ao guideline!

Mas, o mercado é caprichoso e aqui vai uma ironia: conheço quem vive de molho e não cria patos. Outros mais estão insanamente ocupados, flutuando num universo de possibilidades, para descerem ao chão imundo do mercantilismo. Eles estão produzindo realidades virtuais que determinarão futuros possíveis. Estes não crêem na liberdade enquanto negatividade.

Bergson dizia que o movimento não precisa do móvel como suporte, mas quem leu? Assim, porque devemos apenas nos orientar pela medida? A vida flui continuamente. É importante mensurar? Sim, mas não é o alfa e ômega da humanidade. Saber viver, realizar projetos, construir, ganhar dinheiro, obter sucesso… Tudo isto se constitui através de uma via reflexiva, quase ao nível filosófico: uma resistência em face ao atrito com o que nos é externo.

Ninguém é nada sem fazer-se e ousar saber. Nem se reconhece como vontade, se não souber superar o meio. Somente assim despertaremos do sono antropológico. Sapere Aude – ousar saber é o que precisamos para sair da menoridade e da escravidão cultural. Outra coisa importante é perguntarmos: você sabe utilizar o que conhece? E sua empresa? Quem não puder responder, não obteve o conhecimento. Tem apenas informações, dados ou opiniões. O conhecimento pressupõe o domínio da técnica, da estratégia e do fazer. Filosofar é um ato simples, mas muito rigoroso. Quem dera houvesse mais pessoas dispostas a ver problemas onde todos apenas enxergam “normalidades”. Talvez houvesse mais sustentabilidade, menos solidão e até mais lucro!

Meu conselho: Deixe o preconceito de lado e sempre vá além dos chavões. Mesmo que os outros não entendam, você sabe que pode conseguir. Pense nisto.

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